No Rincão da Forquilha

Coisas do meu rincão. Causos e estórias do meu rincão


Deixe um comentário

Estórias do Tio Roma

Tio Roma é peão maduro, lidador de muitas fazendas, já aposentado das lidas, tira suas folgas pra reviver seus bons tempos, no aconchego do meu rincão.

Nas lidas campeiras, nos churrascos de fogo de chão, Tio Roma sempre anima, contando os causos da região. Peão do Painel, gozador e contador de estórias, que me inspirou a contar estes causos.

É o imaginário lageano, lobisomem, que nas noites de lua cheia ainda assombra o povoado.  Sem falar das assombrações que estão presentes nas velhas sedes das fazendas, nos cemitérios campeiros. Das minas enterradas numa mangueira ou taipa antiga, do boitatá da lua nova ou da mula sem cabeça.

A partir de agora, vamos relembrar os causos contados pelo Tio Roma, que povoam o imaginário lageano.

Anúncios


3 Comentários

Boitatá do Conta Dinheiro

Essa não é do Tio Roma, ouvi do próprio peão, mas com certeza o Tio Roma aumentou o causo e sacaneou o peão. O imaginário popular é fértil, mas boitatá existe. Eu mesmo já vi uma vez. Pra ser bem sincero, fiquei impressionado. É um fenômeno fantástico, indescritível e raro.

Mas as estórias de boitatá abundam e os sustos repercutem na região. O boitatá aparece em noite de lua nova, perto de um velho cemitério campeiro, vassoural, ou perto das macegas, raramente em campo aberto.

Mas vamos a umas das estórias, das muitas que se ouve na região. Aconteceu com um peão do nosso rincão,  Tio Tarso,  solteirão, gente boa, acanhado, fala mansa.

Num sábado depois do almoço,  encilhou a gateada e botou o pé na estrada. Duas horas a cavalo até os fundões da Aroeira, lá perto da Vossoroca. Por lá vivia prenda solteira, bem apessoada, prendada, que provocava suor frio e rubor no peão.

Lá pelo meio da tarde, chega o peão na casa da moça. Sabe como é, namoro no sítio começa na cozinha, batendo papo com os velhos e vai noite adentro. Se o peão bobeia, nem chega a falar com a prenda e já anoitece.

O cabloco era ligeiro pra trabalhar, mas no namoro, era novato. As horas passavam e o namoro engatinhava, já era dez da noite e ainda rolava o papo na cozinha, com os velhos. Impaciente com o andar da prosa e com receio de enfrentar a estrada na madrugada, Tio Tarso resolveu voltar logo pra casa.

O peão era meio assombrado. Ainda bem que por aqueles cantos não tinha cemitério velho. Naquela circunstância, a escuridão de uma noite de lua nova era assustadora. Debaixo do lampião Tio Tarso ajeita os arreios, pega a gateada e deita cabelo pela escuridão.

Numa noite daquelas, não tinha jeito, o caboclo fica vendido. Larga os arreios, reza e torce pra égua não errar o caminho. Era meia hora até a estrada. O peão rezava pra não aparecer nenhuma assombração, mula-sem-cabeça, boitatá. A eguinha era boa e não se perdeu no campo. Agora era só seguir as clareiras da estrada.

Lá pelas onze e meia da noite, numa curva da estrada, a égua se assusta e empina, o peão se arrepia, olha pro lado e toma o maior susto, bolas de fogo subindo e descendo, era o boitatá. Firma as mãos nas rédeas, puxa pra esquerda e entra mato adentro. Sai mais à frente na estrada, todo sujo, rasgado.

Aterrorizado, acelera o passo sem olhar pra trás, num instante chega em casa. Desincilha a gateada e dorme no galpão, pra não acordar os velhos. Noutro dia, Tia Zana teve muito trabalho pra limpar, lavar e consertar as roupas.

Na segunda, corria o comércio que o peão tinha se sujado todo. Não sei se é fato mesmo, mas segundo Tio Roma, o peão, de vergonha, demorou pra aparecer na praça e nunca mais voltou pra aquelas bandas, nem a cortejar a prenda.


2 Comentários

No Rincão da Forquilha

No Rincão da Forquilha é um ensaio contando os causos e estórias do Rincão da Forquilha da Fazenda Grande.

Me apaixonei por este rincão, pela beleza de seus campos, coxilhas, pinheiros, capões, taipas centenárias, gado crioulo lageano e pelos causos do imaginário da sua gente. O forte vínculo deste rincão com os fatos históricos locais, com o lendário cap. Joaquim José Pereira.

Aqui vou tentar traduzir toda esta paixão com muito realismo e bom humor. Além das estórias e causos e a tentativa de entender a alma lageana.

Também vou buscar contribuições em outras obras. O primeiro passo neste sentido virá do livro brochura “Coisas do Passado”, de José Maria de Arruda Filho, painelense de boa cepa, amante do gado crioulo e entendedor da alma lageana, como poucos.

Os contos serão arquivados por categoria, pra facilitar a consulta por tema. Vamos começar com o causo regional “Boitatá do Conta Dinheiro”, arquivado em Estórias do Tio Roma. Depois os posts fluirão variando categorias.

Até mais