No Rincão da Forquilha

Coisas do meu rincão. Causos e estórias do meu rincão

Boitatá do Conta Dinheiro

3 Comentários

Essa não é do Tio Roma, ouvi do próprio peão, mas com certeza o Tio Roma aumentou o causo e sacaneou o peão. O imaginário popular é fértil, mas boitatá existe. Eu mesmo já vi uma vez. Pra ser bem sincero, fiquei impressionado. É um fenômeno fantástico, indescritível e raro.

Mas as estórias de boitatá abundam e os sustos repercutem na região. O boitatá aparece em noite de lua nova, perto de um velho cemitério campeiro, vassoural, ou perto das macegas, raramente em campo aberto.

Mas vamos a umas das estórias, das muitas que se ouve na região. Aconteceu com um peão do nosso rincão,  Tio Tarso,  solteirão, gente boa, acanhado, fala mansa.

Num sábado depois do almoço,  encilhou a gateada e botou o pé na estrada. Duas horas a cavalo até os fundões da Aroeira, lá perto da Vossoroca. Por lá vivia prenda solteira, bem apessoada, prendada, que provocava suor frio e rubor no peão.

Lá pelo meio da tarde, chega o peão na casa da moça. Sabe como é, namoro no sítio começa na cozinha, batendo papo com os velhos e vai noite adentro. Se o peão bobeia, nem chega a falar com a prenda e já anoitece.

O cabloco era ligeiro pra trabalhar, mas no namoro, era novato. As horas passavam e o namoro engatinhava, já era dez da noite e ainda rolava o papo na cozinha, com os velhos. Impaciente com o andar da prosa e com receio de enfrentar a estrada na madrugada, Tio Tarso resolveu voltar logo pra casa.

O peão era meio assombrado. Ainda bem que por aqueles cantos não tinha cemitério velho. Naquela circunstância, a escuridão de uma noite de lua nova era assustadora. Debaixo do lampião Tio Tarso ajeita os arreios, pega a gateada e deita cabelo pela escuridão.

Numa noite daquelas, não tinha jeito, o caboclo fica vendido. Larga os arreios, reza e torce pra égua não errar o caminho. Era meia hora até a estrada. O peão rezava pra não aparecer nenhuma assombração, mula-sem-cabeça, boitatá. A eguinha era boa e não se perdeu no campo. Agora era só seguir as clareiras da estrada.

Lá pelas onze e meia da noite, numa curva da estrada, a égua se assusta e empina, o peão se arrepia, olha pro lado e toma o maior susto, bolas de fogo subindo e descendo, era o boitatá. Firma as mãos nas rédeas, puxa pra esquerda e entra mato adentro. Sai mais à frente na estrada, todo sujo, rasgado.

Aterrorizado, acelera o passo sem olhar pra trás, num instante chega em casa. Desincilha a gateada e dorme no galpão, pra não acordar os velhos. Noutro dia, Tia Zana teve muito trabalho pra limpar, lavar e consertar as roupas.

Na segunda, corria o comércio que o peão tinha se sujado todo. Não sei se é fato mesmo, mas segundo Tio Roma, o peão, de vergonha, demorou pra aparecer na praça e nunca mais voltou pra aquelas bandas, nem a cortejar a prenda.

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3 pensamentos sobre “Boitatá do Conta Dinheiro

  1. Gostei!
    Este causo é bom mesmo. Que seja o primeiro de muitos.Vamos em frente.

    • Estou contratando a blogueira http://digiphotus.blogspot.com/ para incrementar as estórias com gravuras. Os novos posts já estão sendo trabalhados. A partir de fevereiro espero postá-los periodicamente.
      Mas vamos alternar os causos com outras estórias e ensaios.
      Aguarde e verás.

  2. Gostei de ler! Ficou realmente bom. Agora é só seguir publicando os causos dos campos de cima da serra.

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