No Rincão da Forquilha

Coisas do meu rincão. Causos e estórias do meu rincão


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Briga de Tauras

As brigas de touros são famosas na região. Outrora haviam patrões que encostavam nas divisas seus melhores touros e apostavam na briga.
Hoje é coisa do passado, mas briga de touro é bicho feio. Não tem porteira, cerca ou taipa. Quando os bichos se batem, ninguém separa. Dizem que um bom cachorro, tiro de foguete, banho de água, choque resolve.
Mas quando a briga é parelha, por um rebanho de novilhas, só a morte os separa.
Neste meu rincão, tem dois touros intrigados. É rixa mesmo, não tem jeito de se acostumarem.
A coisa começou há dois anos, quando o patrão comprou o Mucuru, touro campeão das pistas, da melhor linhagem do Sr. Nelson Camargo. Pronto, estava arrumada a confusão.
De cara o campeão, foi logo botando banca, assumindo o potreiro e as invernadas.
Mas aí tinha o Jaryi Pia, touro da casa, filho da vovó, vaca matreira de linhagem painelense, lá da Casa de Pedra. Touro tinhoso, daquele painelense de cepa, apanha mas não corre.
Era touro demais, o espaço ficou pequeno. Não demorou muito e aconteceu a peleia, na primeira troca de invernada. Briga de tauras, em campo aberto.
O patrão separou-os nas invernadas, mas o Jaryi, touro tinhoso, que levou a pior, ficando curtindo sua raiva, no fundo da invernada.
Não demorou muito e os touros estavam de novo se provocando por cima das taipas.
Terminada a estação de monta, se acalmam os touros. Na primavera retomam suas diferenças.
Mucuru passou mal no inverno, descuido do patrão. Agora Jaryi pomposo é o novo rei das invernadas.
Pressentindo novo embate, Mucuru no potreiro e Jaryi rodando nas invernadas. Pouco antes do inicio da temporada de monta, num sábado, patrão com visitas, aconteceu o último embate.
Jaryi pulou a taipa e o embate foi no potreiro. Cabeça a cabeça, guampa a guampa, não demorou e o Jaryi botou o campeão a correr. Num tropico na barragem do açude e lá estava o campeão no chão, junto a taipa, Jaryi em cima forçando as guampas contra a barrigueira. Patrão saltou pra tentar salvar o velho campeão e a patroinha a esbravejar desesperada, este homem é maluco, leva logo uma chifrada.
Num vacilo do Jaryi , Mucuru voltou a correr, agora o embate foi pro açude. O Patrão pensou rápido é agora que morre afogado o velho campeão.
Rex, flecha, foguete, tiro, nada demovia este touro transtornado, ele não queria só vitória e humilhação, queria também sangue e destruição.
Num novo vacilo, o velho campeão se levanta e corre, acontecem mais dois embates, logo depois o combate volta pro açude. Mucuru a correr e Jaryi em seu encalço.
Finalmente o patrão resolve jogar pesado. Coloca outro touro pra dividir a peleia. Camboim chega a beira do açude urrando e cavando, chama a atenção do Jaryi e dá folga pro velho campeão, que se retira da arena, pra curar suas feridas e aplacar sua humilhação.
Noutro dia os ânimos já estavam serenados, o patrão coloca o Jaryi na invernada com um lote de novilhas.
Mucuru está abatido, alquebrado e depremido, agora a preocupação é com sua recuperação pra enfrentar nova temporada.

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Alma Lageana

Para entender a Alma Lageana precisamos conhecer a formação do povo lageano.
A ocupação destes campos começou no início do século XVIII com os bandeirantes e lagunistas ao longo dos caminhos das tropas.
Eram tropeiros, aventureiros, desterrados, todos que pudessem encarar uma terra hostil onde havia campos ocupados apenas por gado.
Em Alma Lageana vamos conviver com o jeito rude e campeiro do povo lageano.
A vida modesta e simples da gente que habita o Continente das Lagens. As façanhas de seus peões, tropeiros, taipeiros.
A sua estreita relação com as forças da natureza, com a vida animal.
São relatos, muitas vezes lendários da vida desta gente, que a partir de agora passam a ilustrar estas páginas.


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Assombração na Serrinha

Essa o Tio Roma contou na cozinha lá de casa. Muito sério, disse que era a mais pura verdade.

Este causo aconteceu lá pros lados da Serrinha, com um peão chamado Tio Ruja, “peão pra toda obra” do Vinoco Camargo.

Há muito tempo atrás, num sábado a tarde, Tio Ruja resolveu descer pro Painel pra rever os amigos e tomar uns tragos nos botecos. A prosa estava boa, de boteco em boteco o peão velho anoiteceu.

Lá pelas tantas estava no armazém do Jovino, velho tropeiro de carga do Painel, já aposentado das lidas e agora atrás do balcão. Já era quase dez da noite, Jovino, homem velho cheio de manias, tratou de fechar o boteco e colocar Tio Ruja pra fora.

O jeito foi botar o pé na estrada, mesmo tonto e tropicando. Longas duas horas até a fazenda lá na Serrinha.

Logo que saia do Painel, tinha a passagem pela velha fazenda do Hercílio Andrade, onde corria boato que o velho Dalmo incorporava o lobisomem que atormentava a região nas noites de lua cheia.

Ufa! enfim subindo a Serrinha, já na chapada tem um velho cemitério, que se dizia assombrado. O peão velho se retorcia de medo pra cruzar aquele lugar, quanto mais chegava perto, mais atormentado.

Quando estava se aproximando do velho cemitério campeiro, percebeu que se aproximava um camarada. Respirou aliviado, teria companhia para passar pelo cemitério. Aliviou os passos até o camarada alcançá-lo, quando então suspirou:

  • Graças que te encontrei companheiro, eu estava morrendo de medo de passar sozinho pelo cemitério.

Ao que o outro respondeu:

  • Bah Tchê! Eu quando era vivo também morria de medo!

O índio velho arregalou os olhos, olhou pro lado, onde se abriu um clarão e disparou a correr.

Pra encurtar caminho desceu uma ribanceira, caiu, rolou, se arranhou, até entrar num capão de mato. Era são joão, unha de gato, sucará, … nenhuma espinheira detinha o caboclo. Mais pra frente alguma coisa o segurou, na certa algum corpo seco, enfim era o terror, o medo a flor da pele.

Desesperado cruzou o capão e logo chegou em casa, berrando, todo lanhado e sujo. Vieram acudir e então souberam da estória. Depois desta o indio velho nunca mais cruzou o dito cemitério.


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Brio do Carro

Esta estória foi transcrita da pag. 28 do livro Coisas do Passado, publicado em 1964 pelo pecuarista painelense José Maria de Arruda Filho, quando já vivia na cidade, relembrando sua vida campeira. Zé Maria era um apaixonado pelas coisas do passado, pelas lidas campeiras, pelas coxilhas, pelo campo nativo, pela vida na fazenda. Nele relata suas vivências num passado distante, na Fazenda Boavista. As lidas campeiras, os animais da fazenda, os manejos da época, o cavalo campeiro e o gado crioulo. Dele extraio os relatos dos causos da época, das façanhas dos peões e dos tristes relatos do ocaso de algum fazendeiro.

Mas vamos a transcrição da estória, que está ambientada na década de 40, quando os capôs dos carros eram mais fortes. Eis a narrativa de Zé Maria:

“A propósito, certa ocasião viajando com um conhecido nosso e no carro dele, recém adquirido, lá em certa altura o carro enguiçou. Ele só sabia, parece, pisar nos pedais. Quando viu que o carro não ia mesmo, saltou com um facão grande na mão e disse:

  • Esperem aí que eu já dou brio pra ele!

Foi num matinho próximo e voltou com um porrete. O homem era brabo e encheu de porretadas a capota do carro. Quando cansou, atirou o pau fora, entrou no carro, ligou e pisou no acelerador. O carro roncou e continuamos a viagem. Quando íamos saindo, ele virou para nós e disse vitorioso:

  • Então, eu não lhes disse?

Contamos este fato a um chofer e ele explicou:

  • O carro parou por falta de gasolina em virtude de algum entupimento. Com certeza desentupiu com os choques das pancadas.

Passado algum tempo encontramos o homem na praça e perguntamos:

  • Como vai seu carro? Tem dado muito brio pra ele?
  • Qual nada! Agora, quem agarrou brio fui eu.
  • Na primeira vez que ele parou depois daquela, eu fiz o mesmo, mas sem resultado. O recurso foi o mecânico e quem saiu amassada foi minha carteira.”