No Rincão da Forquilha

Coisas do meu rincão. Causos e estórias do meu rincão


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Tempestade no Rincão

O nosso rincão fica numa chapada sujeita a todo tipo de intempéries. Granizo, tornados e tempestades daquelas brabas, com vento forte, muitos raios, trovões e relâmpagos.

Quando o tempo fecha a peonada se assusta e começa a rezar.

É no final da primavera que se aproximam as temorosas.

De vez em quando passam direto pra Mortandade ou giram pro sul ao longo do Lavatudo, lá pros lados da Vossoroca.

Na época que a sede estava em reforma sob a batuta do mestre Biraba, num final de tarde o céu se escureceu com a aproximação de uma daquelas.

Naquela hora o patrão velho se preparava para levar sal pras terneiras lá da invernada do rincão.

Contemplou aquele cenário, coçou a cabeça, pensou ligeiro e fincou o pé na estrada.

Ao passar pelo fogo de chão, lá do alto do morro gritou o César Branco, que com o Tio Leti consertava a taipa do velho carregador da época do Celsinho Mariano:

  • E a tempestade, homem?
  • Rapaz! Acho que dá tempo, retrucou o patrão.

Passou o portão e se fincou na estrada, com o Rex no seu encalço.

Quando chegou no alto da colina do mata-burro a coisa só tinha piorado. Mas o patrão estava decidido, acelerou o passo pra tentar voltar antes da tempestade.

Do alto da colina do pomar o patrão percebeu que a tempestade que vinha do norte, já andava lá pros lados da Serrinha e galopava numa velocidade alucinante.

Apertou ainda mais os passos, num instante estava no saleiro.

Na volta, quando fechava o portão teve uma visão assustadora. A tempestade tinha chegado na antiga sede do rincão, o calipal sacodia e gemia pela força do vento.

O patrão velho se botou a correr na direção do antigo pomar. No meio do caminho, assustado com a força do vento, raios e trovões correu para o meio do vassoural.

Agachado debaixo de uma vassoura, abraçado ao Rex, ficou imaginando como cruzaria o calipal do velho pomar, com aquela força devastadora do vento e a saraivada de raios.

Melhor ficar esperando debaixo do vassoural.

Quando o vento acalmou, o patrão velho não teve dúvida, fincou o pé na estrada pra tentar fugir da saraivada de raios. O negócio era torcer pros raios não caírem perto, desviar o calipal e os pinheiros isolados e rezar pra chegar logo em casa.

Logo depois do mata-burro o vento voltou com força junto com nova saraivada de raios. Dali deu pra notar que caiu um bem perto do fogo de chão.

O patrão vinha rezando e prometendo pra todos os santos que se escapasse daquela tormenta, nunca mais ia enfrentar outra tempestade em campo aberto.

Agora, ele que era da cidade, já sabia porque os campeiros respeitavam tanto as tempestades.

Ao chegar no fogo de chão, pegou os peões César Branco e Tio Leti debaixo da mesa, provavelmente rezando.

  • Que que é isso peão! indagou o patrão.

Nem deu tempo pra rir, os peões logo correram pra pegar carona.

No outro dia, na hora do rango, Tio Roma e Biraba eram só gozação pra cima dos peões por força do fiasco do dia anterior.

Os prejuízos foram grandes. Além da geladeira do fogo de chão queimada, um boi gordo do seu Antonio Silva morto por um raio. Na antiga sede do rincão, aquela usada pelo Romeu da Pedra, jaziam dois pesados eucaliptos tombados pela força da tempestade.

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Tornado na Fazenda Grande

Se tem algo que amedronta o povo campeiro das fazendas é tempestade com raios e granizo. Agora o que apavora mesmo é o tornado.

E aqui por estas bandas não é algo raro de acontecer. Há poucos anos atrás, o último tornado que passou, atingiu em cheio a vila do Painel destruindo várias casas e derrubando mais de 2 mil pinheiros.

O ocorrido foi no final de tarde e há relatos de pinheiros e até gado voando pela cidade. Se é lenda ou fato não sei, mas de fato a garagem do Tio Jânio levantou vôo e parou em cima da casa do vizinho.

Mais o fato que vou contar é mais antigo. Da época em que o patrão comprou a fazenda.

A antiga sede estava virada numa tapera velha, com muita vassoura e taipas caidas. Só tinha um velho galpão em ruinas. O começo foi de muita faxina e a prioridade foi construir um novo galpão com baias pros cavalos, banheiro e quarto pra hospedar algum peão.

Logo que o galpão ficou pronto, o patrão passou a ocupá-lo nos finais de semana.

A comida era feita no fogo de chão e logo que anoitecia, todos já estavam na cama. Algum tempo depois, no final da primavera, num sábado estavam na fazenda a Vó Dorinha, Vô Cide, Tiago e o patrão.

Lá pelas dez da noite, a mulher velha por conta do efeito do chimarrão desceu pro banheiro. O movimento acordou o patrão.

Logo que as coisas se acalmaram e antes de pegar no sono, o patrão sentiu aquela lufada, em seguida o debulhar das telhas e a sacudida no galpão, pronto era um tornado.

A mulher velha se apavorou, num instante imaginou que tudo ia pelos ares, quando ameaçou abrir a porta, o patrão gritou:

  • Não abre que é pior. O negócio é deitar e esperar.

Nova rajada de vento e mais telhas no chão, aí a mulher velha se deseperou, se agarrou no Vô Cide e rezou um terço em poucos segundos. Não demorou muito e o tornado passou. Aí todos aliviados voltaram logo a dormir

No dia seguinte a Vó Dorinha jurava que o galpão tinha levantado um metro do chão, mas de fato ele foi sacudido pelo forte vento e por sorte o prejuízo ficou só nas telhas.

O olho do tornado passou a trezentos metros dali e por onde passou fez estrada, nada ficou de pé. Pinheiros, árvores, tudo foi ao chão.

Como a mulher velha ainda estava apavorada, Vô Cide sempre muito gozador, não perdeu tempo, disse que se o tornado tivesse atingido o galpão em cheio, como ela era muito leve, com certeza ia parar na copada de algum pinheiro.


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O Javali do Taquara

Taquara era peão valente, destemido, lidador de muitas fazendas. Como os irmãos Cará e Bolacha, nascido e criado na Vossoroca. Depois de moço mudou-se pro Painel, onde logo se apaixonou por formosa morena, filha do Tio Juca Brito.

Magrinho, sempre alegre e sorridente, contador de bons causos, mas nas lidas campeiras um verdadeiro taura.

Já peão feito, passou seus últimos anos de lida, na fazenda do Paulo Menina, vizinha do meu rincão. Vez por outra sua filha Maninha dá uma mão pra patroinha nas lidas lá de casa.

De prontidão pra qualquer lida campeira, certa vez, na mangueira do Celsinho Mariano, numa lida pro Hélio Branco, touro deitou no centro da mangueira e num instante levantou boi. A peonada aplaudiu a destreza do Taquara naquela castração.

Taquara encarnou como poucos a verdadeira alma lageana.

Mas vamos a estória que motivou este causo. Alguns anos atrás, encilhou as éguas com o genro Cabeça e na companhia da velha buldogue, foi a cata de pinhão nas chapadas da fazenda do Antonio Silva, aqui ao lado do meu rincão.

Perto do açude das carpas, o nego velho avistou tremendo javali pastando com a boiada. Devagar se aproximou, mas logo o bicho percebeu e se largou em disparada pro perau logo depois da cascata. A velha buldogue, Taquara e Cabeça no seu encalço. O bicho logo estava acuado. O Taquara montado disparou certeira laçada pelo meio do carazal. Firmou o laço na argola da basteira da baia e gritou pro Cabeça:

  • Saltemos! Eu na cabeça e tu nas patas. Mas temos que pegar junto.

Ao sinal do Taquara, num instante estavam os dois sobre o javali, de mais de cem quilos. Dominado, sangrado e carneado, deixou o Taquara dependurada numa árvore a cabeça do javali, que hoje enfeita o nosso fogo de chão, como troféu e recordação das façanhas deste taura.

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Cabeça do Javali do Taquara, que enfeita o fogo de chão da FG

Depois de aposentado, o nego velho não suportou por muito tempo a vida monótona da praça. Logo mudou-se pra fazenda do Cerro Grande, do Tadeu Waltrick.

Agora as emoções estavam proibidas, mesmo assim todos os dias o velho peão encilhava a rosilha e volteava o campo a cata de alguma rês ferida ou vaca parida.

Numa rotineira caminhada pelo campo, eis que surge por encanto um velho javali a perturbá-lo. Nesta última lida, durante a perseguição saltou como um bólido do cavalo em cima do javali, com a mão esquerda segurou a orelha e com a direita desferiu certeiro golpe de peixeira na jugular.

A emoção desta derradeira lida foi tão grande, que seu cansado coração não suportou, na manhã seguinte o velho peão foi encontrado no leito sorrindo e já desfalecido. Assim encerrou seus dias, este verdadeiro taura.

 


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Briga de Tauras

As brigas de touros são famosas na região. Outrora haviam patrões que encostavam nas divisas seus melhores touros e apostavam na briga.
Hoje é coisa do passado, mas briga de touro é bicho feio. Não tem porteira, cerca ou taipa. Quando os bichos se batem, ninguém separa. Dizem que um bom cachorro, tiro de foguete, banho de água, choque resolve.
Mas quando a briga é parelha, por um rebanho de novilhas, só a morte os separa.
Neste meu rincão, tem dois touros intrigados. É rixa mesmo, não tem jeito de se acostumarem.
A coisa começou há dois anos, quando o patrão comprou o Mucuru, touro campeão das pistas, da melhor linhagem do Sr. Nelson Camargo. Pronto, estava arrumada a confusão.
De cara o campeão, foi logo botando banca, assumindo o potreiro e as invernadas.
Mas aí tinha o Jaryi Pia, touro da casa, filho da vovó, vaca matreira de linhagem painelense, lá da Casa de Pedra. Touro tinhoso, daquele painelense de cepa, apanha mas não corre.
Era touro demais, o espaço ficou pequeno. Não demorou muito e aconteceu a peleia, na primeira troca de invernada. Briga de tauras, em campo aberto.
O patrão separou-os nas invernadas, mas o Jaryi, touro tinhoso, que levou a pior, ficando curtindo sua raiva, no fundo da invernada.
Não demorou muito e os touros estavam de novo se provocando por cima das taipas.
Terminada a estação de monta, se acalmam os touros. Na primavera retomam suas diferenças.
Mucuru passou mal no inverno, descuido do patrão. Agora Jaryi pomposo é o novo rei das invernadas.
Pressentindo novo embate, Mucuru no potreiro e Jaryi rodando nas invernadas. Pouco antes do inicio da temporada de monta, num sábado, patrão com visitas, aconteceu o último embate.
Jaryi pulou a taipa e o embate foi no potreiro. Cabeça a cabeça, guampa a guampa, não demorou e o Jaryi botou o campeão a correr. Num tropico na barragem do açude e lá estava o campeão no chão, junto a taipa, Jaryi em cima forçando as guampas contra a barrigueira. Patrão saltou pra tentar salvar o velho campeão e a patroinha a esbravejar desesperada, este homem é maluco, leva logo uma chifrada.
Num vacilo do Jaryi , Mucuru voltou a correr, agora o embate foi pro açude. O Patrão pensou rápido é agora que morre afogado o velho campeão.
Rex, flecha, foguete, tiro, nada demovia este touro transtornado, ele não queria só vitória e humilhação, queria também sangue e destruição.
Num novo vacilo, o velho campeão se levanta e corre, acontecem mais dois embates, logo depois o combate volta pro açude. Mucuru a correr e Jaryi em seu encalço.
Finalmente o patrão resolve jogar pesado. Coloca outro touro pra dividir a peleia. Camboim chega a beira do açude urrando e cavando, chama a atenção do Jaryi e dá folga pro velho campeão, que se retira da arena, pra curar suas feridas e aplacar sua humilhação.
Noutro dia os ânimos já estavam serenados, o patrão coloca o Jaryi na invernada com um lote de novilhas.
Mucuru está abatido, alquebrado e depremido, agora a preocupação é com sua recuperação pra enfrentar nova temporada.

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Alma Lageana

Para entender a Alma Lageana precisamos conhecer a formação do povo lageano.
A ocupação destes campos começou no início do século XVIII com os bandeirantes e lagunistas ao longo dos caminhos das tropas.
Eram tropeiros, aventureiros, desterrados, todos que pudessem encarar uma terra hostil onde havia campos ocupados apenas por gado.
Em Alma Lageana vamos conviver com o jeito rude e campeiro do povo lageano.
A vida modesta e simples da gente que habita o Continente das Lagens. As façanhas de seus peões, tropeiros, taipeiros.
A sua estreita relação com as forças da natureza, com a vida animal.
São relatos, muitas vezes lendários da vida desta gente, que a partir de agora passam a ilustrar estas páginas.