No Rincão da Forquilha

Coisas do meu rincão. Causos e estórias do meu rincão


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Lobisomem do Tio Roma

Nas noites de lua cheia, durante a quaresma, lobisomem é coisa comum de se ver no Painel.

Uivos, latidos de cães, correria, cachorros acuando, é o orelhudo assustando de novo o velho povoado.

Conta Tio Roma, quando ainda era guri, morando na casa velha da Tia Romélia , durante a quaresma era batata, sempre aparecia o lobisomem.

Nos botecos da praça, nas rodas de cachaça, as prosas corriam soltas sobre quem era o novo lobisomem que assolava a praça, fazendeiro, capataz, tropeiro talvez. Com certeza, novo morador que se transformava no bicho e deixa a população em polvorosa.

Mas Tio Roma me contou, outro dia numa lida de gado que naquela época, numa noite de lua cheia, enquanto os cachorros acuavam, já em noite avançada, por conta de uma ligeira, foi obrigado a ir a privada.

Só com o clarão do lampião, colocado atrás de casa, correu pra distante casinha com medo da assombração. Assustado, de porta aberta, escutava cachorros acuando… primeiro descendo a estrada na direção do rio, depois ao longe na direção do morro do Baixeiro.

De repente, os cachorros passaram a acuar na direção da vila, num instante o bicho estava ali, parado contra a luz do lampião, olhos vermelhos de fogo, presas a mostra. Tio Roma, estatelado, mudo, todo borrado. Ainda bem que estava no trono sentado.

Por sorte em seguida os cachorros chegaram e o bicho velho pros lados do Morro da Cruz se fincou.

Tio Roma mal se limpou, correu logo pra casa. Com o susto que levou, em noites de lua cheia nunca mais foi pra privada.


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Briga de Tauras

As brigas de touros são famosas na região. Outrora haviam patrões que encostavam nas divisas seus melhores touros e apostavam na briga.
Hoje é coisa do passado, mas briga de touro é bicho feio. Não tem porteira, cerca ou taipa. Quando os bichos se batem, ninguém separa. Dizem que um bom cachorro, tiro de foguete, banho de água, choque resolve.
Mas quando a briga é parelha, por um rebanho de novilhas, só a morte os separa.
Neste meu rincão, tem dois touros intrigados. É rixa mesmo, não tem jeito de se acostumarem.
A coisa começou há dois anos, quando o patrão comprou o Mucuru, touro campeão das pistas, da melhor linhagem do Sr. Nelson Camargo. Pronto, estava arrumada a confusão.
De cara o campeão, foi logo botando banca, assumindo o potreiro e as invernadas.
Mas aí tinha o Jaryi Pia, touro da casa, filho da vovó, vaca matreira de linhagem painelense, lá da Casa de Pedra. Touro tinhoso, daquele painelense de cepa, apanha mas não corre.
Era touro demais, o espaço ficou pequeno. Não demorou muito e aconteceu a peleia, na primeira troca de invernada. Briga de tauras, em campo aberto.
O patrão separou-os nas invernadas, mas o Jaryi, touro tinhoso, que levou a pior, ficando curtindo sua raiva, no fundo da invernada.
Não demorou muito e os touros estavam de novo se provocando por cima das taipas.
Terminada a estação de monta, se acalmam os touros. Na primavera retomam suas diferenças.
Mucuru passou mal no inverno, descuido do patrão. Agora Jaryi pomposo é o novo rei das invernadas.
Pressentindo novo embate, Mucuru no potreiro e Jaryi rodando nas invernadas. Pouco antes do inicio da temporada de monta, num sábado, patrão com visitas, aconteceu o último embate.
Jaryi pulou a taipa e o embate foi no potreiro. Cabeça a cabeça, guampa a guampa, não demorou e o Jaryi botou o campeão a correr. Num tropico na barragem do açude e lá estava o campeão no chão, junto a taipa, Jaryi em cima forçando as guampas contra a barrigueira. Patrão saltou pra tentar salvar o velho campeão e a patroinha a esbravejar desesperada, este homem é maluco, leva logo uma chifrada.
Num vacilo do Jaryi , Mucuru voltou a correr, agora o embate foi pro açude. O Patrão pensou rápido é agora que morre afogado o velho campeão.
Rex, flecha, foguete, tiro, nada demovia este touro transtornado, ele não queria só vitória e humilhação, queria também sangue e destruição.
Num novo vacilo, o velho campeão se levanta e corre, acontecem mais dois embates, logo depois o combate volta pro açude. Mucuru a correr e Jaryi em seu encalço.
Finalmente o patrão resolve jogar pesado. Coloca outro touro pra dividir a peleia. Camboim chega a beira do açude urrando e cavando, chama a atenção do Jaryi e dá folga pro velho campeão, que se retira da arena, pra curar suas feridas e aplacar sua humilhação.
Noutro dia os ânimos já estavam serenados, o patrão coloca o Jaryi na invernada com um lote de novilhas.
Mucuru está abatido, alquebrado e depremido, agora a preocupação é com sua recuperação pra enfrentar nova temporada.

https://www.flickr.com/photos/digiphotus/14819383111/in/album-72157646146324231/

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Alma Lageana

Para entender a Alma Lageana precisamos conhecer a formação do povo lageano.
A ocupação destes campos começou no início do século XVIII com os bandeirantes e lagunistas ao longo dos caminhos das tropas.
Eram tropeiros, aventureiros, desterrados, todos que pudessem encarar uma terra hostil onde havia campos ocupados apenas por gado.
Em Alma Lageana vamos conviver com o jeito rude e campeiro do povo lageano.
A vida modesta e simples da gente que habita o Continente das Lagens. As façanhas de seus peões, tropeiros, taipeiros.
A sua estreita relação com as forças da natureza, com a vida animal.
São relatos, muitas vezes lendários da vida desta gente, que a partir de agora passam a ilustrar estas páginas.


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Assombração na Serrinha

Essa o Tio Roma contou na cozinha lá de casa. Muito sério, disse que era a mais pura verdade.

Este causo aconteceu lá pros lados da Serrinha, com um peão chamado Tio Ruja, “peão pra toda obra” do Vinoco Camargo.

Há muito tempo atrás, num sábado a tarde, Tio Ruja resolveu descer pro Painel pra rever os amigos e tomar uns tragos nos botecos. A prosa estava boa, de boteco em boteco o peão velho anoiteceu.

Lá pelas tantas estava no armazém do Jovino, velho tropeiro de carga do Painel, já aposentado das lidas e agora atrás do balcão. Já era quase dez da noite, Jovino, homem velho cheio de manias, tratou de fechar o boteco e colocar Tio Ruja pra fora.

O jeito foi botar o pé na estrada, mesmo tonto e tropicando. Longas duas horas até a fazenda lá na Serrinha.

Logo que saia do Painel, tinha a passagem pela velha fazenda do Hercílio Andrade, onde corria boato que o velho Dalmo incorporava o lobisomem que atormentava a região nas noites de lua cheia.

Ufa! enfim subindo a Serrinha, já na chapada tem um velho cemitério, que se dizia assombrado. O peão velho se retorcia de medo pra cruzar aquele lugar, quanto mais chegava perto, mais atormentado.

Quando estava se aproximando do velho cemitério campeiro, percebeu que se aproximava um camarada. Respirou aliviado, teria companhia para passar pelo cemitério. Aliviou os passos até o camarada alcançá-lo, quando então suspirou:

  • Graças que te encontrei companheiro, eu estava morrendo de medo de passar sozinho pelo cemitério.

Ao que o outro respondeu:

  • Bah Tchê! Eu quando era vivo também morria de medo!

O índio velho arregalou os olhos, olhou pro lado, onde se abriu um clarão e disparou a correr.

Pra encurtar caminho desceu uma ribanceira, caiu, rolou, se arranhou, até entrar num capão de mato. Era são joão, unha de gato, sucará, … nenhuma espinheira detinha o caboclo. Mais pra frente alguma coisa o segurou, na certa algum corpo seco, enfim era o terror, o medo a flor da pele.

Desesperado cruzou o capão e logo chegou em casa, berrando, todo lanhado e sujo. Vieram acudir e então souberam da estória. Depois desta o indio velho nunca mais cruzou o dito cemitério.


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Brio do Carro

Esta estória foi transcrita da pag. 28 do livro Coisas do Passado, publicado em 1964 pelo pecuarista painelense José Maria de Arruda Filho, quando já vivia na cidade, relembrando sua vida campeira. Zé Maria era um apaixonado pelas coisas do passado, pelas lidas campeiras, pelas coxilhas, pelo campo nativo, pela vida na fazenda. Nele relata suas vivências num passado distante, na Fazenda Boavista. As lidas campeiras, os animais da fazenda, os manejos da época, o cavalo campeiro e o gado crioulo. Dele extraio os relatos dos causos da época, das façanhas dos peões e dos tristes relatos do ocaso de algum fazendeiro.

Mas vamos a transcrição da estória, que está ambientada na década de 40, quando os capôs dos carros eram mais fortes. Eis a narrativa de Zé Maria:

“A propósito, certa ocasião viajando com um conhecido nosso e no carro dele, recém adquirido, lá em certa altura o carro enguiçou. Ele só sabia, parece, pisar nos pedais. Quando viu que o carro não ia mesmo, saltou com um facão grande na mão e disse:

  • Esperem aí que eu já dou brio pra ele!

Foi num matinho próximo e voltou com um porrete. O homem era brabo e encheu de porretadas a capota do carro. Quando cansou, atirou o pau fora, entrou no carro, ligou e pisou no acelerador. O carro roncou e continuamos a viagem. Quando íamos saindo, ele virou para nós e disse vitorioso:

  • Então, eu não lhes disse?

Contamos este fato a um chofer e ele explicou:

  • O carro parou por falta de gasolina em virtude de algum entupimento. Com certeza desentupiu com os choques das pancadas.

Passado algum tempo encontramos o homem na praça e perguntamos:

  • Como vai seu carro? Tem dado muito brio pra ele?
  • Qual nada! Agora, quem agarrou brio fui eu.
  • Na primeira vez que ele parou depois daquela, eu fiz o mesmo, mas sem resultado. O recurso foi o mecânico e quem saiu amassada foi minha carteira.”


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Estórias do Tio Roma

Tio Roma é peão maduro, lidador de muitas fazendas, já aposentado das lidas, tira suas folgas pra reviver seus bons tempos, no aconchego do meu rincão.

Nas lidas campeiras, nos churrascos de fogo de chão, Tio Roma sempre anima, contando os causos da região. Peão do Painel, gozador e contador de estórias, que me inspirou a contar estes causos.

É o imaginário lageano, lobisomem, que nas noites de lua cheia ainda assombra o povoado.  Sem falar das assombrações que estão presentes nas velhas sedes das fazendas, nos cemitérios campeiros. Das minas enterradas numa mangueira ou taipa antiga, do boitatá da lua nova ou da mula sem cabeça.

A partir de agora, vamos relembrar os causos contados pelo Tio Roma, que povoam o imaginário lageano.


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Boitatá do Conta Dinheiro

Essa não é do Tio Roma, ouvi do próprio peão, mas com certeza o Tio Roma aumentou o causo e sacaneou o peão. O imaginário popular é fértil, mas boitatá existe. Eu mesmo já vi uma vez. Pra ser bem sincero, fiquei impressionado. É um fenômeno fantástico, indescritível e raro.

Mas as estórias de boitatá abundam e os sustos repercutem na região. O boitatá aparece em noite de lua nova, perto de um velho cemitério campeiro, vassoural, ou perto das macegas, raramente em campo aberto.

Mas vamos a umas das estórias, das muitas que se ouve na região. Aconteceu com um peão do nosso rincão,  Tio Tarso,  solteirão, gente boa, acanhado, fala mansa.

Num sábado depois do almoço,  encilhou a gateada e botou o pé na estrada. Duas horas a cavalo até os fundões da Aroeira, lá perto da Vossoroca. Por lá vivia prenda solteira, bem apessoada, prendada, que provocava suor frio e rubor no peão.

Lá pelo meio da tarde, chega o peão na casa da moça. Sabe como é, namoro no sítio começa na cozinha, batendo papo com os velhos e vai noite adentro. Se o peão bobeia, nem chega a falar com a prenda e já anoitece.

O cabloco era ligeiro pra trabalhar, mas no namoro, era novato. As horas passavam e o namoro engatinhava, já era dez da noite e ainda rolava o papo na cozinha, com os velhos. Impaciente com o andar da prosa e com receio de enfrentar a estrada na madrugada, Tio Tarso resolveu voltar logo pra casa.

O peão era meio assombrado. Ainda bem que por aqueles cantos não tinha cemitério velho. Naquela circunstância, a escuridão de uma noite de lua nova era assustadora. Debaixo do lampião Tio Tarso ajeita os arreios, pega a gateada e deita cabelo pela escuridão.

Numa noite daquelas, não tinha jeito, o caboclo fica vendido. Larga os arreios, reza e torce pra égua não errar o caminho. Era meia hora até a estrada. O peão rezava pra não aparecer nenhuma assombração, mula-sem-cabeça, boitatá. A eguinha era boa e não se perdeu no campo. Agora era só seguir as clareiras da estrada.

Lá pelas onze e meia da noite, numa curva da estrada, a égua se assusta e empina, o peão se arrepia, olha pro lado e toma o maior susto, bolas de fogo subindo e descendo, era o boitatá. Firma as mãos nas rédeas, puxa pra esquerda e entra mato adentro. Sai mais à frente na estrada, todo sujo, rasgado.

Aterrorizado, acelera o passo sem olhar pra trás, num instante chega em casa. Desincilha a gateada e dorme no galpão, pra não acordar os velhos. Noutro dia, Tia Zana teve muito trabalho pra limpar, lavar e consertar as roupas.

Na segunda, corria o comércio que o peão tinha se sujado todo. Não sei se é fato mesmo, mas segundo Tio Roma, o peão, de vergonha, demorou pra aparecer na praça e nunca mais voltou pra aquelas bandas, nem a cortejar a prenda.


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No Rincão da Forquilha

No Rincão da Forquilha é um ensaio contando os causos e estórias do Rincão da Forquilha da Fazenda Grande.

Me apaixonei por este rincão, pela beleza de seus campos, coxilhas, pinheiros, capões, taipas centenárias, gado crioulo lageano e pelos causos do imaginário da sua gente. O forte vínculo deste rincão com os fatos históricos locais, com o lendário cap. Joaquim José Pereira.

Aqui vou tentar traduzir toda esta paixão com muito realismo e bom humor. Além das estórias e causos e a tentativa de entender a alma lageana.

Também vou buscar contribuições em outras obras. O primeiro passo neste sentido virá do livro brochura “Coisas do Passado”, de José Maria de Arruda Filho, painelense de boa cepa, amante do gado crioulo e entendedor da alma lageana, como poucos.

Os contos serão arquivados por categoria, pra facilitar a consulta por tema. Vamos começar com o causo regional “Boitatá do Conta Dinheiro”, arquivado em Estórias do Tio Roma. Depois os posts fluirão variando categorias.

Até mais